terça-feira, 29 de abril de 2014

Manifesto De Stijl

NEOPLASTICISMO
Primeiro manifesto
De Stijl (1918)
1. Há dois conhecimentos dos tempos: um antigo e um novo. O antigo se dirige para o individualismo.
O novo se dirige ao universal.
A luta do individual contra o universal se revela tanto na guerra mundial quanto na arte de nossa época.
2. A guerra destrói o mundo antigo com o seu conteúdo: a dominação individual sob todos os pontos de vista.
3 A arte nova atualiza o que está contido no novo conhecimento dos tempos: proporções iguais do universal e do individual.
4. O novo conhecimento dos tempos está prestes a se realizar em tudo, mesmo na vida exterior.
5. As tradições, os dogmas e as prerrogativas do individualismo (o natural) se opõem a esta realização.
6. O objetivo da revista de arte De Stijl é apelar para todos aqueles que acreditam na reforma da arte e da cultura para aniquilar tudo o que impede o desenvolvimento, do mesmo modo que fizeram no campo da arte nova suprindo a forma natural que contraria a própria expressão da arte, a conseqüência mais alta de cada conhecimento artístico.
7. Os artistas de hoje tomaram parte na guerra mundial no domínio espiritual, impelidos pelo mesmo conhecimento contra as prerrogativas do individualismo: o capricho com todos aqueles que combatem espiritualmente ou materialmente para a formação de uma unidade internacional na Vida, na Arte e na Cultura.
8. O órgão De Stijl, fundado com esse fim, dispende todos os seus esforços para tornar clara a nova idéia da vida. A colaboração de todos é possível pelo: envio do nome, endereço, profissão à nossa redação, como prova de assentimento; contribuições (críticas, filosóficas, arquiteturais, científicas, literárias, musicais, etc., assim como reproduções fotográficas) para o periódico mensal De Stijl; tradução em todas as línguas e publicação das idéias publicadas em De Stijl.
Assinatura dos colaboradores:
Theo van Doesburg, pintor/ Robt van´t Hoff, arquiteto/ Vilmos Huszar, pintor/ Antony Kok, poeta/ Piet Mondrian, pintor/ G. Vantongerloo, escultor/ Jan Wils, arquiteto.
Segundo manifesto Neoplasticista
De Stijl 1920
A literatura
O organismo da literatura contemporânea vive ainda do sentimentalismo de uma geração debilitada.
A palavra está morta
Os clichês naturalistas e os filmes dramáticos de palavras que os fabricantes de livros fornecem aos metros e aos quilos não contêm nenhum dos novos aspectos de nossa vida.
A palavra impotente
A poesia asmática e sentimental — o eu e o ele — que é perpetrada em toda parte e principalmente na Holanda está sob a influência de um individualismo temente do espaço. resíduo fermentado de um tempo velho e que nos enche de tédio.
A psicologia na nossa literatura romanesca repousa apenas na imaginação subjetiva; a análise psicológica e a retórica confusa mataram a significação da palavra.
Essas frases cuidadosamente colocadas uma após outra e uma debaixo da outra, essa fraseologia seca na qual os realistas antigos apresentavam suas experiências limitadas a si mesmos, são inteiramente impotentes e não podem exprimir as experiências coletivas de nosso tempo. Seguindo a antiga concepção da vida, os livros se baseiam no comprimento, na duração, são volumosos: a nova concepção da vida reside na profundidade e intensidade e assim queremos a poesia.
Para construir literariamente os múltiplos acontecimentos em tomo de nós, é necessário que a palavra seja reconstituída ao mesmo tempo como som e como idéia. Se na antiga poesia, pela dominação dos sentimentos relativos e subjetivos, a significação intríseca da palavra foi destruída, queremos por todos os meios ao nosso alcance —a sintaxe, a prosódia, a tipografia, a aritmética, a ortografia— dar uma nova significação da palavra e uma nova força à expressão.
A dualidade entre prosa e poesia não pode subsistir; a dualidade entre o conteúdo e a forma não pode subsistir. Então, para o escritor moderno, a forma terá uma significação diretamente espiritual, ele não descreverá nenhum acontecimento, não descreverá nada: escreverá.
Recriará na palavra o coletivo dos fatos: unidade construtiva do conteúdo e da forma. Contamos como apoio moral e estético de todos aqueles que colaboram na renovação espiritual do mundo.

Leyden-Holanda, abril 1920 Theo van Doesburg/Piet Mondrian/Aniony Kok

Terceiro Manifesto Neoplasticista
Para a formação do novo mundo
A concentração espiritual (Cristo) e a concentração material (Capitalismo) formam no antigo mundo o eixo em torno do qual o povo evoluiu. Mas eis que o espírito se dispersou. Apesar disso, os portadores do espírito estão solidários. Interiormente. Não há mais saída para a Europa. Concentração e possessão, o individualismo espiritual e material eram as bases da antiga Europa. Ele está bloqueado por dentro. Não pode mais se livrar. O perigo é fatal.
Observamos tudo tranqüilamente; mesmo se estivesse em nossas mãos intervir, não interviríamos. Não pretendemos prolongar a vida dessa prostituta.
Divisamos uma nova Europa. As ridículas 1a., 2a., 3a. Internacionais Socialistas foram apenas barulho superficial, brilho de palavras. A Internacional do espírito interior, intransponível em palavras. Longe de ser uma redundância vocabular constitui atos plásticos e força vital interior. Força de espírito. Assim faz o esquema do novo plano do mundo. Não fazemos nenhum apelo aos povos: reuni-vos ou juntai-vos a nós. Sabemos que os que se juntarão a nós já juntos estavam, de origem, pelo espírito. Só para estes será modelado o corpo espiritual do novo mundo.
Trabalhai.

Quinto Manifesto Neoplasticista
De Stijl (1923)
Para ama construção coletiva

I. Trabalhando coletivamente, examinamos a arquitetura como unidade criada de todas as artes, indústria técnica, etc., e descobrimos que a conseqüência disso será um novo estilo.
II. Examinamos as leis do espaço e suas variações infinitas (isto é, os contrastes de espaço, as dissonâncias de espaço, os complementos de espaço, etc.) ... e descobrimos que todas essas variações do espaço devem ser governadas como uma unidade de equilíbrio.
III. Examinamos as leis da cor no espaço e na duração e descobrimos que as relações equilibradas desses elementos dão enfim uma unidade nova e positiva.
IV. Examinamos a relação entre o espaço e o tempo, e descobrimos que o aparecimento desses dois elementos através da cor produz uma nova dimensão.
V. Examinamos as relações recíprocas da medida, da proposição, do espaço, do tempo e dos materiais, e descobrimos o método definitivo de construí-los como uma unidade.
VI. Pelo rompimento da caixa fechada (os muros, etc.) acabamos com a dualidade do interior e do exterior.
VII. Damos à cor seu verdadeiro lugar na arquitetura e declaramos que a pintura separada da construção arquitetural (isto é, o quadro) não tem nenhuma razão de ser.
VIII. A época da destruição está totalmente superada. Uma nova época começa, a da construção.


Paris 1923 Van Eesteren / Theo van Doesburg / G. Rietveld.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Tunga em obras: Brasileiro, que estará na próxima Bienal de SP, abre nova exposição em galeria de Nova York

MARCOS AUGUSTO GONÇALVES - DE NOVA YORK
Na semana passada, a galeria Luhring Augustine, no bairro de Chelsea, em Nova York, abriu suas portas para uma nova exposição do brasileiro Tunga, intitulada, em francês, "La Voie Humide" (a via úmida).
Nova, no caso, tem sentido especial: é a primeira apresentação de um conjunto de obras que se destaca da produção anterior do artista -- embora mantenha, naturalmente, relações com a sua rica e já longa trajetória.
"É claro que a gente não consegue não ser a gente mesmo", diz ele, que completa 62 anos em outubro.
"Mas depois de um momento que eu considero de síntese da minha obra, eu achei por bem tentar recomeçar", afirma.
"À diferença do que vinha fazendo antes, me lancei em algumas aventuras completamente às escuras, ou melhor, ofuscado por um excesso de luz, um sentimento muito poderoso. Essas coisas acontecem porque a gente está vivo. A tarefa de um artista, de um poeta, é também a de estar atento a essa possibilidade de se transformar continuamente."
Das 11 esculturas e dos 14 desenhos em exibição até 31 de maio, emerge uma poética mais luminosa, construída a partir de um novo repertório de materiais e desenvolvida de maneira pouco usual na carreira do artista.
A começar pela presença de peças moldadas à mão, que foram se configurando não a partir de um projeto fechado, mas ao longo de sua própria feitura.
"Eu pus a mão na massa, literalmente. Comecei a trabalhar com terracota, a esculpir e modelar", conta.
"Deliberadamente me coloquei nesse retorno ao fazer com a mão. Sem nenhum elogio a isso, mas com a ideia de que aquilo que a mão fala é fundador. Quando você se volta para o fazer com a mão, você de algum modo se reencontra com o arcaico, com as matrizes."
A terracota é apenas um dos materiais presentes nas esculturas --tripés de ferro que sustentam um arranjo de peças. O artista também usou, entre outros, resinas, goma arábica, borracha, gesso, panos, bronze, pérolas e tubos de vidro com mercúrio.
Ele considera que a escolha de novos materiais reflete, por si, um modo de pensar, e que traz embutida "a expressão de uma certa alegria", que também se traduz "na presença clara de uma cor um pouco híbrida, de começo de dia, de praia antes do sol nascer" --em contraste com fases mais "escuras"-- de seu trabalho.
"Creio que a mudança radical que se operou na minha vida foi perceber que há mais mistério na vida, na luz, do que na morte", resume.
ESPELHO
Tanto as esculturas quanto os desenhos contêm referências explícitas --e implícitas-- ao corpo, mas numa fase particular, que se relaciona com a noção psicanalítica do "estágio do espelho".
"Para um bebê", explica ele, "o corpo nesse estágio é percebido como formações sucessivas, configuradas segundo ordens da natureza e do desejo. São partes que se fundem, se soltam, se moldam, se ligam umas às outras e também a coisas exteriores, como o seio materno, a luz ou os ruídos".
Mecanismo similar corresponde ao princípio de construção das novas obras, que conectam elementos diversos num mesmo conjunto --ou num mesmo corpo.
Tunga acredita que a experiência infantil do "corpo expandido" pode ser experimentada em fases posteriores da vida através do amor.
"Falo do amor como a excelência do que eu chamo de energia de conjunção, aquela energia capaz de fazer com que de dois elementos surja um terceiro. Os três, formando uma tríade, são uma unidade e uma coisa nova."
Ele vê, ainda, nos seus novos trabalhos, um caráter de "oráculo". "Também pelo fato de remeterem a um modo de pensar relacionado ao arcaico, eles trazem essa característica. É quase como se você pudesse perguntar a eles sobre a natureza de uma pluralidade de coisas e eles pudessem te responder --caso você esteja aberto para as respostas."
Convidado para a próxima Bienal de São Paulo, Tunga afirma que pretende explorar a ideia de oráculo de maneira talvez mais explícita, criando uma relação "quase que interpessoal" da obra com o público.
"O trabalho ainda está em fase de preparação, mas posso adiantar que, ao contrário da ideia de monumentalidade que a Bienal evoca, eu vou numa direção quase intimista, embora em grande escala", diz.

LA VOIE HUMIDE
QUANDO de ter. a sáb., das 10h às 18h; até 31/5
ONDE Luhring Augustine, 531 West 24th street, tel. (1) 212-206-9100, Nova York
QUANTO grátis
www.canotusbrasil.blogspot.com

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quarta-feira, 23 de abril de 2014

ANDRÉ VAINER E MARCELO FERRAZ: Outra vez o Masp


A crise é sobretudo de credibilidade. Vemos uma contabilidade de números de visitantes usada como defesa diante da falta de ousadia
A crise por que passa o Masp (Museu de Arte de São Paulo) está relacionada ao desmonte sistemático de um projeto artístico e conceitual celebrado como uma revolução no mundo dos museus.
É também a falta de reconhecimento aos seus criadores. Após a saída do professor Pietro Maria Bardi da direção, o Masp vem erraticamente caminhando, ora com mostras "blockbusters", ora no lamento da falência financeira.
Mas sempre no sentido oposto aos ideais de seus criadores: Assis Chateaubriand, o "aventureiro" realizador, Pietro Maria Bardi, o talentoso caçador de obras-primas, e Lina Bo Bardi, a revolucionária arquiteta. Esses nomes vêm sendo apagados pouco a pouco, esquecidos.
A crise não pode ser tomada apenas no seu aspecto financeiro. Se fosse assim, uma boa campanha de arrecadação entre os associados a resolveria. No passado, o professor Bardi em vários momentos botou a mão no bolso para manter as portas do Masp abertas. Hoje, muitos querem ajudar, mas com o dinheiro público de renúncia fiscal, por meio da Lei Rouanet.
A crise do Masp é sobretudo de credibilidade. O museu se fechou para a sociedade artística e intelectual e para os produtores culturais. Daí a dificuldade no diálogo com município, Estado e União. Estes e mais algumas instituições como o Instituto Bardi, a USP e a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) deveriam ter seu assento no conselho. Afinal, apesar de pertencer a uma sociedade privada, ninguém tem dúvida de sua natureza pública, enquanto patrimônio tombado.
Os princípios fundadores do museu estão na arquitetura de espaços livres, acessíveis e generosos, abrigo de criadores de vanguarda; centro cultural com uma das maiores coleções de arte do Ocidente. Qualidade, inteligência e ousadia guiaram seus criadores e dirigentes por décadas. Hoje, vemos uma contabilidade de números de visitantes usada como defesa diante da falta de ousadia. Lina costumava dizer: "Os supermercados também estão lotados. Isso é sucesso?".
São pontos altos do projeto o vão-livre e a museografia de cavaletes de concreto e vidro, que Lina chamava de "painéis didáticos de cristal". Tocar nesses temas desagrada a muitos, mas clarifica a falta de reconhecimento de seus criadores e o fechamento do museu em si mesmo.
O vão-livre, um ninho de aconchego urbano, de tempos em tempos é ameaçado. Mas isso nunca vingará: as reações contrárias são contundentes. Dois pisos acima, porém, o fechamento do museu está em marcha desde 1996, com a extinção da libertária museografia de Lina.
Pessoas com menos de 25 anos não conheceram a coleção de obras expostas como uma grande família. Ao contrário, o que se vê hoje é uma expografia mais afeita aos palacetes europeus, com salinhas e labirintos, fruto de visão colonizada. Mataram a grande sala de exposições. A proposta de Lina era a quebra total de modelos expositivos e, gostando ou não, não poderia desaparecer. Deveria ser guardada como experiência radical e única. Andamos para trás.
Neste ano, comemoramos o centenário de Lina. É uma oportunidade de recuperarmos sua museografia. Mais do que uma homenagem, seria um gesto de respeito aos frequentadores, que merecem conhecer esse ousado projeto em sua plenitude. E, quem sabe, um primeiro passo para o museu voltar a dialogar franca e abertamente com toda a sociedade.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Mostra exibe vestido, espartilho e prótese de Frida Kahlo

No México, museu expõe vestuário que ficou trancado no banheiro da casa da artista 50 anos após sua morte
FERNANDA EZABELLACOLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DA CIDADE DO MÉXICO
Por 50 anos, o banheiro do quarto de Frida Kahlo permaneceu trancado após sua morte, na casa onde hoje funciona um popular museu na Cidade do México. O espaço só foi aberto há dez anos, revelando diversos baús de objetos íntimos, como cartas, fotografias e vestidos coloridos.
Enquanto as correspondências viraram livros sobre a artista mexicana, seu guarda-roupa e suas fotos vão aos poucos chegando ao público. É o caso de duas mostras em cartaz na capital mexicana e na Califórnia (EUA).
Mais de 300 peças de vestuário são exibidas até setembro na residência de Kahlo, apelidada de Casa Azul, em salas que mudam os figurinos a cada três meses.
"Ela usava estes vestidos tradicionais para fortalecer sua identidade, reafirmar suas crenças políticas e para esconder suas imperfeições", diz a curadora Circe Henestrosa. "Seus amigos mais íntimos contam como Kahlo tinha um cuidado especial ao escolher o que vestir, dos pés à cabeça, com as mais lindas sedas, laços, xales e saias."
A exposição traz também aparatos médicos que a artista precisava usar por conta de suas doenças (primeiro pólio e depois um acidente num ônibus). Há uma prótese de perna com uma bota de cano alto vermelha e um espartilho feito de gesso, decorado com uma foice e um martelo.
Já a terceira sala tem objetos curiosos como um vidro de esmalte pink e adereços de cabeça. Outros espaços exibem vestidos de alta costura, como Gautier e Givenchy, inspirados na pintora.
Em 1937, seu estilo a colocou nas páginas da "Vogue". A revista ajudou na organização da mostra e anunciou um livro em parceria com o museu, a ser lançado na América Latina neste semestre.
PINTURAS E FOTOS
Foi o muralista Diego Rivera (1886-1957), marido de Kahlo (1907-1954), que havia dado as ordens para manter o banheiro fechado por 15 anos após a morte da artista. Mas a mecenas Dolores Olmedo (1908-2002), amiga íntima de Rivera que tinha ciúmes de Kahlo, conseguiu manter o lugar lacrado por mais tempo.
Olmedo, maior detentora de obras dos dois artistas, tem um museu próprio na periferia da Cidade do México. Em março, abriu uma exposição com centenas de pinturas da dupla que estavam em itinerância havia dois anos.
Outro lugar para ver as raridades do banheiro da Casa Azul é o Museu de Arte Latino-Americana de Long Beach (Califórnia), que exibe mais de 200 fotografias tiradas por Kahlo e de Kahlo. Há lembranças de família, como retratos da artista aos seis anos, e imagens de amigos famosos como Man Ray (1890-1976).
"É como sentar em sua sala de estar e folhear seu álbum de fotos. É muito pessoal", disse o presidente do museu, Stuart Ashman. A mostra abriu com um concurso de sósias e tem programação extensa com palestras e atividades até junho.
Folha, 15.04.2014

terça-feira, 25 de março de 2014

Galeria em Nova York recria mostras do regime nazista

ISABEL FLECK - DE NOVA YORK
Em julho de 1937, duas grandes exposições de arte foram abertas ao público em Munique, ambas organizadas pelo regime de Adolf Hitler.
A primeira se destinava a doutrinar os alemães sobre o que deveria ser, de fato, considerado arte.
A segunda mostra, inaugurada a apenas 500 metros da outra, tinha como meta gerar um sentimento de repulsa sobre a arte moderna, ou "degenerada", como determinaram os nazistas.
A diferença entre as duas pode ser vista agora na Neue Galerie, em Nova York, que as recriou na exposição "Degenerate Art: The Attack on Modern Art in Nazi Germany" (Arte Degenerada: O Ataque à Arte Moderna na Alemanha Nazista). São mais de 50 obras, muitas delas confiscadas pelos nazistas por anos.
"Hitler queria restabelecer Munique como a principal cidade para as artes na Alemanha. Então houve essas exposições simultâneas, que estabeleciam o que era apropriado e o que não era em termos de arte", afirma o curador, o alemão Olaf Peters.
Idealizada pelo ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, a exposição "Arte Degenerada", no entanto, acabou atraindo 2 milhões de visitantes --quatro vezes mais do que a "Exposição da Grande Arte Alemã".
Em um vídeo gravado por um jornalista americano, é possível ver o público percorrendo os corredores da "Arte Degenerada".
"Você tem a impressão de que era a primeira vez que muitas daquelas pessoas iam a uma exposição de arte moderna", diz o curador. "Mas muitas outras foram para se despedir desse tipo de arte, aquela poderia ser a última vez que viam algo assim."
A tela "Eternos Caminhantes", de Lasar Segall, foi uma das que integrou a mostra. Enviada pelo Museu Lasar Segall, em São Paulo, faz parte da exposição em Nova York, que segue até 30 de junho.
As peças consideradas "apropriadas", por sua vez, eram de artistas alemães ligados ao nazismo e pinturas clássicas ou realistas.
A disposição na Neue Galerie segue o mesmo padrão das exposições de Munique. Na sala dedicada à "Exposição da Grande Arte Alemã", um local amplo, com paredes brancas, há obras espaçadas e bancos para sentar.
Na que reúne as pinturas e esculturas da "Arte Degenerada", há paredes escuras, quadros amontoados e espaço apertado. Na exposição original, as paredes eram pichadas com frases contra a arte moderna.
"O tipo de arte e o tipo de apresentação foram as principais diferenças entre as duas exposições. Na Arte Degenerada', a instalação foi feita de maneira bruta e propagandista, com a intenção de influenciar a opinião do visitante", observa Peters.
Estima-se que mais de 20 mil obras, em sua maioria modernistas, foram confiscadas de museus estatais alemães pelo nazismo.
Mais de 5.000 delas devem ter sido destruídas. A perda é retratada na mostra de Nova York, com molduras vazias e nomes das pinturas ausentes.
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quarta-feira, 19 de março de 2014

Rio recebe as obras hiper-realistas do artista Ron Mueck: Esculturas do australiano retratam cenas do cotidiano e surpreendem por dimensões e expressões faciais

Nove obras poderão ser vistas a partir de amanhã no Museu de Arte Moderna; exposição vai até junho
FABIO BRISOLLADO RIO
Uma escultura de uma mulher com as sacolas de compras vem sendo a peça que mais desperta a atenção do público na exposição "Ron Mueck", promovida pela Fundação Cartier, que chega ao Rio amanhã, no Museu de Arte Moderna, após passar por Paris e Buenos Aires.
Além das sacolas, a mulher, vestida com um sobretudo, carrega um bebê. E, enquanto é observada pela criança, ela direciona seu olhar para outra direção. O rosto da personagem é expressivo, com rugas e olheiras que sinalizam cansaço.
É o hiper-realismo das esculturas do artista australiano Ron Mueck que impressiona os visitantes --mais de 400 mil na primeira escala desta mostra, em Paris, no início do ano passado, e cerca de 170 mil em Buenos Aires.
São nove esculturas que contrastam pela discrepância na proporção de cada uma. Sentada, a idosa, em traje de banho e sob um guarda-sol, mede mais de dois metros de altura. O homem, deitado em seu colo, mantém dimensões semelhantes.
Já a mulher que traz o bebê dentro do sobretudo tem 113 centímetros de altura.
Mueck não justifica suas escolhas, nem fala sobre suas motivações na criação de cada peça. Seguindo o padrão de Paris e Buenos Aires, cada obra exposta no MAM terá uma ficha de identificação com informações básicas como título e ano de produção.
"Mueck não considera necessário contar a história da obra. Para ele, mais importante é o que o espectador sente ao ver a escultura", disse Charles Clarke, assistente do artista, que coordenou a montagem das peças no MAM. Mueck não veio ao Brasil.
Faz parte da exposição um documentário sobre o processo de produção do australiano, que mora em Londres.
Em seu estúdio, ele usa, por exemplo, materiais como fibra de vidro e silicone para reproduzir a textura da pele dos personagens. Mueck desenvolveu algumas técnicas no período em que trabalhou com a produção de efeitos especiais para a indústria do cinema nos anos 1980.
Na década seguinte, ele iniciou sua incursão na arte. Sua produção ao longo da carreira se resume a 40 esculturas, aproximadamente.
"Nove peças em uma exposição poderia ser considerado pouco. Mas, no caso de Mueck, representa quase um quarto da obra", disse Grazia Quaroni, curadora da mostra.
A serviço da Fundação Cartier, ela mantém contato direto com Mueck --a ponto de saber a história que levou à criação da escultura da mulher com as sacolas de compras.
"Ele viu esta cena quando andava pela rua e fez um desenho com a imagem da mãe sendo observada pelo bebê. Em outra ocasião, ele encontrou outra mulher na rua, na mesma situação. A partir daí decidiu criar uma obra para registrar aquele momento", contou Grazia.
De acordo com a curadora, a mulher retratada não existe, de fato: "Mas a cena captada por ele faz parte do nosso cotidiano".

quarta-feira, 12 de março de 2014

Livro reúne as cinco décadas de carreira do multiartista Aguilar: Pintor, escultor, performer e líder de grupo musical, o paulistano acaba de dirigir um longa

Nova série de pinturas e tridimensionais, 'Rios Voadores', é inspirada nos cursos d'água de Alter do Chão, no Pará
ÚRSULA PASSOSDE SÃO PAULO
Amanhã será lançado no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, o livro "José Roberto Aguilar - 50 Anos de Arte", sobre a trajetória e a obra do multiartista paulistano.
Pintor, escultor, videoartista, performer e líder de um grupo musical, Aguilar, 72, agora aguarda, "para depois da Copa do Mundo", o lançamento do filme "Anna K.", que ele dirigiu e roteirizou.
Com a atriz Leona Cavalli no papel principal, o longa conta a história de uma mulher que às vezes é possuída por Anna Karenina.
"Ela é meio maluca, às vezes é tomada pelo personagem do romance de Tolstói, que quer levá-la ao suicídio outra vez", diz Aguilar à Folha, em entrevista no seu ateliê na Bela Vista.
Há cerca de dez anos, o artista e sua mulher compraram uma casa em Alter do Chão, no Pará, e ali surgiu a inspiração para a sua nova série de pinturas e trabalhos tridimensionais, "Rios Voadores", que remete aos cursos d'água da região.
"O que me atraiu foi a magia, as pessoas. Aquela região é como se fosse a gênese acontecendo naquele instante, e as pessoas são muito lindas, são paisagens maravilhosas as artérias dos rios."
ENTRE LIVROS
Quando apresentado por críticos de arte, Aguilar é comumente descrito como autodidata, por não ter frequentado escolas de artes.
"Nunca separei artes plásticas da cultura em geral. A minha influência foi muito literária, sempre fui um devorador de livros", conta.
Seus dois escritores favoritos do momento são o chileno Roberto Bolaño e o mestre americano da ficção científica, Philip K. Dick.
"Toda minha pintura foi uma extensão da literatura. Até hoje, os caras me criticam muito porque escrevo nas telas. E me meto em todas, faço videoarte, tem a Banda Performática, tudo isso faz parte do mesmo caudal."
Nos anos 1980, ele formou o grupo musical Aguilar e a Banda Performática, do qual faziam parte, entre outros, os cantores Arnaldo Antunes e Paulo Miklos. Como líder do grupo, Aguilar cantava e fazia performances no palco.
"É a única banda em que o band leader' não sabe nada de música", brinca.
O disco de 1982, com uma de suas pinturas na capa, tinha como carro-chefe a canção "Você Escolheu Errado Seu Super-Herói", mais tarde gravado pelas Frenéticas.
Aguilar tem planos de voltar com a banda, sem a formação original, dessa vez com com "maior desconstrução sonora, sintetizadores".
"Quando você está no palco você desaparece, parece iluminação, você é apenas movimento, ação."
Cercado de telas de todos os tamanhos em sua casa e ateliê, Aguilar diz que hoje é mais difícil o artista iniciante expor do que era quando ele começou, nos anos 1960.
"É uma tortura absurda, porque tem uma fórmula para entrar numa galeria que é altamente alienante."
Já ele expôs em sua primeira Bienal em 1963, aos 22 anos. "A Bienal era democrática, você mandava seu trabalho e era julgado por uma comissão, foi assim que comecei minha carreira", diz. Para Aguilar, o artista faz porque não pode deixar de fazer: "É existencial. Você é escalado por algum gênio da lâmpada a fazer alguma coisa."
Ele ainda não sabe como será a distribuição de "Anna K.".
"A gente é meio cult', tenta ser, pelo menos", declara. "Cult' é um palavrão, uma armadilha, é não ser popular, não ser para a massa. Mas alguém há de ver. A gente não pode ser outra coisa, infelizmente. Cantar a gente não sabe, pintar a gente tenta, então, tem que ter um rótulo."
Obra antecipou a arte de rua e o sonho de uma vanguarda global
SILAS MARTÍDE SÃO PAULODa captura da "aura psíquica" das coisas, como diz o músico Jorge Mautner, a suas "orgias de cores", na descrição do também músico Arnaldo Antunes, a obra de José Roberto Aguilar parece atravessada por um eixo em mutação: a pintura.
Suas primeiras telas, influenciadas pela literatura e marcadas por certo desdém pelo apuro técnico, nascem densas, carregadas de matéria e calcadas na representação de espaços fantásticos.
São estranhos seres humanoides, que se fundem a flores e plantas ou ganham feições animalescas, sempre retratados em ambientes achatados, como se figura e fundo fossem moldados a partir da mesma energia cósmica.
Da mesma forma que a pintura vai perdendo o fôlego na evolução da arte contemporânea, as pinturas de Aguilar também ensaiaram passos para se libertar do quadro.
Ele se livra do peso da tinta acrílica, adota o esmalte sintético, usa pistolas de ar comprimido e aos poucos seus traços, mais diluídos, saltam dos quadros para estampar carros, banheiras e até painéis de alumínio.
Sem qualquer relação com os neoconcretistas, Aguilar acabou trilhando a mesma rota, fundindo arte e vida ao criar uma espécie de proto-grafite, pinturas desgarradas que não se aguentavam dentro da tela.
É como se prenunciasse a arte de rua, encarnando um Jean-Michel Basquiat tropical, macunaímico.
Embora sua pintura não tenha ido às ruas e avenidas, Aguilar se multiplicou em várias frentes, da videoarte à performance e estridentes incursões musicais à frente de sua Banda Performática.
Tanto que o artista chegou a se descrever como um dadaísta. Tocou piano com luvas de boxe na Pinacoteca, em São Paulo, fez uma bailarina sair de uma enorme melancia durante um show e atacou os demônios, entre eles o "bom gosto" e o "esnobismo" que assolavam a arte brasileira nos anos 1970.
Mas podia ser hoje. Aguilar, num trânsito constante entre São Paulo, Londres e Nova York, realizou antes da globalização o sonho de uma vanguarda sem fronteiras, misturando Bukowski aos ensinamentos do hinduísmo.
Mas essa fúria criativa vai perdendo força na última fase da carreira. Com o retorno à pintura nos anos 1980, Aguilar cria telas abarrotadas de grafismos, arabescos mergulhados num gestual que lembra os expressionistas abstratos americanos.
Depois de experimentos mais livres, suas obras mais recentes parecem domesticadas, como se obedecessem a uma cartilha que ele mesmo desprezava de antemão. Aguilar não deixou de ancorar sua produção em referências fecundas, mas parece ter estacionado. Sua aversão ao mercado e a modismos talvez esteja por trás dessa atitude. Mas seus espasmos de outrora fariam bem à cena atual.
    Folha, 12. 03.2014
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