quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Jean Cocteau e Flávio de Carvalho - Será que a diversidade de talentos atrapalha?

MARCELO COELHO
Exposição na Faap e documentário mostram o talento disperso do mestre vanguardista
Às vezes o excesso de talentos atrapalha. Melhor ser bom numa coisa só do que em várias. Jean Cocteau (1889-1963) foi poeta, cineasta, desenhista, cenógrafo, teatrólogo e teórico do modernismo. Seus diários trazem amargas reflexões sobre o preço que isso lhe custou.
"Cada livro meu seria capaz de assegurar a reputação inteira de uma pessoa", queixa-se ele, sabendo que sua celebridade dependia "de uns filmes e desenhos à margem de minha obra principal, e de uma lenda a meu respeito, feita de inexatidão e de ouvir dizer".
O brasileiro Flávio de Carvalho (1899-1973) sem dúvida sofreu de uma maldição parecida com a de Cocteau. Pintor, desenhista, arquiteto e "performático" antes que o termo se tornasse moda, Flávio de Carvalho conhece uma fama intermitente, sem nunca alcançar o reconhecimento, digamos, de um Oswald de Andrade ou de uma Tarsila do Amaral.
Em parte, isso é uma questão de cronologia: ele entrou na história um pouquinho tarde, a tempo apenas de aderir ao movimento antropofágico, mas sem participar da Semana de 1922.
O arquiteto e agitador cultural iria empreender sozinho, em 1931 e em 1956, suas famosas "experiências". A primeira, que quase lhe valeu ser linchado, consistia em andar no sentido inverso ao de uma procissão de Corpus Christi.
A outra foi desfilar, de saia e meia arrastão, no centro de São Paulo. Flávio de Carvalho pretendia lançar um novo estilo de moda masculina, mais adequado ao clima tropical.
Na exposição dedicada a Flávio de Carvalho, em cartaz na Faap até dia 19 de janeiro, pode-se ver a blusa idealizada pelo artista. Em duas camadas, uma das quais feita com tela de plástico --daquelas que antigamente se punham nas janelas da cozinha para não entrar mosca--, aquela roupa devia ser desconfortável ao extremo.
Detalhe insignificante, por certo, quando o objetivo é ser moderno a todo custo. A exposição também mostra sua obra arquitetônica. São casas de uma estética limpa, sintética, comparáveis aos trabalhos de Warchavchik e Lúcio Costa.
Nada dessa arquitetura faz pressupor o traço bizarro, as deformações dos lábios e o colorido quase caótico das telas do mesmo autor. São retratos de personalidades conhecidas, como a pianista Yara Bernette, o maestro Eleazar de Carvalho e o compositor Camargo Guarnieri.
Há ali a intenção clara de confundir figura e fundo, rosto do retratado e mosaico de cores atrás dele, produzindo uma sensação de exagero quase diletante. Alguns passos adiante na exposição, e surgem desenhos a nanquim que poderiam perfeitamente ser de algum outro artista, mas nunca do mesmo que pintou os quadros ali do lado.
Com toda a paciência que parece ausente dos quadros a óleo, os desenhos vão compondo, contra um fundo neutro, figuras femininas que ganham volume através de infinitas ramificações de tinta preta, como se Flávio de Carvalho, em vez de mãos, tivesse patas de aranha.
Com tantas personalidades, quase "heterônimos", Flávio de Carvalho não facilitou as tarefas da posteridade. Sua fama é centrífuga, resistente e frágil como uma teia de aranha também.
Tentou, além disso, o cinema. Organizou uma equipe e se meteu no Xingu, com o projeto delirante de filmar "A Deusa Branca", história de uma beldade loura a ser cultuada pelos indígenas. A história dessa empreitada virou tema de um documentário dirigido por Alfeu França, que também descobriu nos arquivos de Flávio de Carvalho os rolos do que foi filmado na expedição.
O documentário teve pré-estreia no Itaú e deve voltar a ser exibido no ano que vem. Além de todo o seu interesse histórico e biográfico, é engraçadíssimo. Alfeu França decidiu manter a mesma impassibilidade que Flávio de Carvalho demonstrava em suas performances, e a narração não move um músculo enquanto mostra, passo a passo, a completa loucura de todo o projeto.
Interessado tanto nas louras (que recrutou com um anúncio de jornal em Porto Alegre) quanto no cinema, o artista entrou numa rivalidade com o indigenista que comandava a expedição. Depois de tentar liquidar o assunto a tiros, Flávio de Carvalho foi abandonado num igarapé e salvo por missionários.
Em meio à inviabilidade e ao improviso totais, o filme mantém a narrativa como numa espécie de exaltação protocolar, ao estilo dos documentários oficiais de 1950, da intrepidez do gênio.
Essa loucura a frio, essa provocação arquitetada a ponta seca, e realizada com ares de rabisco, talvez esteja na raiz da personalidade de Flávio de Carvalho. Haverá mais exposições sobre ele no ano que vem; falta muito, ainda, para se ter um retrato completo de seu talento disperso, feito de coragem e inconstância.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Mostra no Rio revê obra de Antonio Manuel: Artista célebre por invadir museu nu em 1970 quer se distanciar de seu passado político

DO ENVIADO AO RIO
É uma explosão calculada. Fragmentos de carvão estão pendurados do teto como meteoritos congelados no momento em que se espatifaram contra a atmosfera. Eles ficam imóveis, flutuando na ponta de fios de náilon, até que alguém esbarre neles.
"Não pode ir entrando direto aqui, senão mancha", diz Antonio Manuel, artista que criou a instalação há quase 20 anos e agora remonta a obra em mostra individual no Museu de Arte Moderna do Rio. "É uma coisa para o corpo, uma selva impenetrável."
De certa forma, desde que Manuel invadiu pelado o vernissage do Salão de Arte Moderna nesse mesmo museu em 1970, apresentando o próprio corpo como obra de arte, seu trabalho não deixou de pensar no embate --violento-- entre corpo e espaço.
Ele não quis mostrar fotografias da ação na mostra atual, mas suas instalações quase todas parecem ter como pano de fundo noções de fragilidade e equilíbrio, ou uma síntese estranha entre sensações de violência e paz.
Logo na entrada, Manuel ergueu muros de alvenaria em cores vibrantes. Construídas dentro do museu, as estruturas foram então marretadas e têm buracos que deixam ver as paredes seguintes.
"Elas viram uma passagem", descreve o artista. "É algo magnético. Você é puxado para dentro dos buracos."
Do lado de lá, além das barreiras, uma série de obras torna mais sutil essa reflexão, ao anular o magnetismo de imagens trágicas famosas.
Duas delas são peças novas que retomam as célebres intervenções sobre jornal que Manuel fez nos anos 1960, em repúdio ao regime militar.
Enquanto um vídeo mostra manchetes recentes sobre "miséria e violência", gotas d'água pingam sobre a tela, embaçando a imagem.
Manuel também encheu três tanques de água em que mergulhou páginas de jornal e fotografias de chacinas, criando um laboratório fotográfico às avessas, em que as imagens se apagam na claridade em vez de se fixarem.
Esse apagamento se radicaliza na última peça da mostra --um jardim de estruturas metálicas vazadas que lembram a diagramação de páginas de jornal, sem nada no lugar de textos e imagens.
Também tem a ver com um esforço do artista em se distanciar do próprio passado para mostrar outras vertentes de sua obra. Embora ainda ancoradas na política, suas peças buscam maior equilíbrio e pureza formal.
"Tudo é dirigido ao corpo", diz Manuel. "Não quero ser só o artista que ficou nu. Mas esse é o espaço onde isso ocorreu. E, pensando bem, estou nu aqui de novo."

    Criação de museus particulares é 'febre': Com governos em crise, instituições privadas ganham influência, além de alimentarem alta de preços nas obras

    Cresce o número de super-ricos que querem abrir seu próprio museu, diz consultor de colecionadores
    DO ENVIADO À CIDADE DO MÉXICO
    Museus de bilionários como o Jumex, na Cidade do México, ou o Crystal Bridges, que Alice Walton, a herdeira do Wal-Mart, construiu em Bentonville, nos Estados Unidos, ou mesmo o Instituto Inhotim, em Brumadinho, no interior de Minas Gerais, não vão parar de surgir tão cedo.
    "Vai virar uma febre. Vamos ver muitos museus privados abrindo", diz João Correia, sócio da empresa de consultoria Art Options, que atende colecionadores. "É uma tendência. Já temos dois clientes pensando nisso."
    São milionários que podem seguir os passos de Bernardo Paz, magnata do minério que transformou uma fazenda no maior museu a céu aberto no mundo, e João Carlos Figueiredo Ferraz, que abriu seu próprio --mais modesto-- instituto em Ribeirão Preto, no interior paulista.
    "Isso não nasceu com nenhum grande objetivo de fazer algo de interesse público", diz Ferraz. "Uma hora só me dei conta que as coisas que mais me seduziam estavam guardadas em caixas."
    Paz foi tão radical que em alguns casos pôs suas obras de arte no meio da floresta.
    "Não comecei uma coleção para meus amigos. Isso é só acúmulo", diz o mineiro. "Queremos criar as condições para que as obras mais complexas possam ser exibidas em caráter permanente."
    Nesse ponto, há generosidade nesses projetos faraônicos, que tornam visíveis ao público tesouros da arte até então pouco acessíveis.
    Mas também é fato que, quando mostradas, essas peças se valorizam ainda mais. A coleção de Eugenio López, que tem 2.700 obras, já triplicou de valor segundo o próprio dono, saltando de R$ 186 milhões para R$ 558 milhões.
    Cifras tendem a aumentar também com cada abertura de museu, num jogo de ostentação que turbina o mercado e transforma colecionadores em celebridades da vez.
    É o caso do francês François Pinault, dono de dois museus em Veneza --um deles é um palácio restaurado pelo arquiteto japonês Tadao Ando. Pinault completou o pacote da fama ao se casar com a atriz mexicana Salma Hayek, mais um poderoso ímã de famosos para as suas festas.

    terça-feira, 3 de dezembro de 2013

    Lei nazista impede devolução de obras de arte

    Por MELISSA EDDY e ALISON SMALE
    HALLE, Alemanha - Wolfgang Büche ficou surpreso quando, em novembro, uma aquarela apreendida pelos nazistas em um pequeno museu do qual ele é curador em Halle, cidade do leste da Alemanha, ressurgiu, como parte de um vasto acervo encontrado em um apartamento de Munique.
    Mas sua empolgação ao ver o trabalho, "Paisagem com Cavalos", um possível estudo para uma pintura do expressionista alemão Franz Marc em 1911, se viu temperada por um fato que ele define como "irrefutável": a lei de 1938 que autorizou os nazistas a apreender o quadro -e milhares de outras peças de arte moderna classificadas como "degeneradas" porque Hitler as via como tendo natureza judaica ou não germânica- continua em vigor até hoje.
    Autoridades alemãs acreditam que 380 obras confiscadas de museus públicos alemães sob essa lei da era nazista podem estar entre os 1.200 quadros, litografias e desenhos encontrados no apartamento de Cornelius Gurlitt, 80, filho de um marchand da era nazista.
    A existência da lei torna improvável que o museu de Büche ou dezenas de outros museus da Alemanha possam reivindicar a restituição de suas obras, dizem especialistas em questões judiciais e autoridades alemãs.
    E é provável que a lei continue em vigor.
    Os nazistas venderam milhares de obras no mercado aberto de arte para encher os cofres do país durante a guerra.
    Revogar ou reformar a lei de 1938 poderia colocar em questão uma rede intrincada de transações de arte envolvendo essas obras, que vêm sendo negociadas em todo o mundo desde então, algo que até mesmo muitos curadores de museus, como Büche, preferem não ter de encarar.
    Nenhum governo alemão tentou repelir essa lei da era nazista. "A situação legal é relativamente óbvia e clara", disse Büche, que supervisiona a coleção da Fundação Moritzburg, em Halle. "Só podemos recomprá-las de volta".
    De fato, as obras confiscadas dos museus públicos alemães estão em categoria separada das obras de proprietários privados judeus que foram confiscadas ou que seus donos foram forçados a vender. Os herdeiros desses proprietários ainda podem ter direito legal às peças em questão.
    Mas, para museus como o de Büche, o percurso legal é muito mais complicado. Além disso, se Gurlitt for capaz de provar que herdou as obras legalmente, elas bem podem continuar a ser sua propriedade, a não ser que surja um acordo com o governo.
    As autoridades alemãs estão sendo criticadas pela condução do caso -especialmente por terem mantido segredo durante dois anos sobre a descoberta das obras. Há dúvidas se elas têm ou não direito a confiscar a coleção completa. Gurlitt não foi acusado de crime algum.
    O promotor estadual de Augsburg, Baviera, onde o caso está sendo conduzido, declarou recentemente que instaria o grupo de trabalho apontado para esclarecer a proveniência da coleção a informar rapidamente a ele que peças pertencem irrefutavelmente a Gurlitt, para que possam ser restituídas ao proprietário. Gurlitt deixou claro que as quer de volta.
    Büche, o curador, também gostaria de ter de volta as peças de seu museu.
    Mas, em suas três décadas no museu Moritzburg, ele só pôde celebrar o retorno de 16 itens do pré-guerra, um décimo da coleção que no passado esteve entre as mais impressionantes do país.
    Algumas das peças que pertenceram ao museu hoje integram o acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York, depois de serem negociadas no mercado aberto.
    Há quem advirta sobre as implicações mais amplas de anular a lei de 1938. "Se essa lei for anulada, então todas as transações teriam de ser anuladas", diz Sabine Rudolph, advogada especialista em restituição de arte.
    "Se um museu que reconhece um trabalho na coleção de Gurlitt insistir em tê-lo de volta, seus dirigentes podem perceber de repente que têm em seu acervo diversas obras que um dia pertenceram a outros museus e que eles também teriam de restituir."
    Fonte: NYT, 03.12.13.

    quinta-feira, 28 de novembro de 2013

    Artista expõe autorretratos sobre emprego e idealização: 'Fired', de Cris Bierrenbach, discute sonhos e estereótipos das profissões

    Fotografias foram atingidas por tiros para subtrair a identidade da fotógrafa e realçar problemas coletivos
    DAIGO OLIVAEDITOR-ASSISTENTE DA "ILUSTRADA"
    Policial, enfermeira, jogadora de futebol, empregada doméstica, gari, recepcionista, executiva, aeromoça, chef de cozinha e prostituta.
    Essas são as dez profissionais "demitidas" que a artista paulistana Cris Bierrenbach, 48, expõe ao público a partir de hoje na mostra "Fired", em cartaz na galeria Lourdina Jean Rabieh, em São Paulo.
    Em fotografias impressas em tamanho real, Bierrenbach registrou a si mesma vestindo uniformes de ofícios facilmente reconhecíveis para discutir não só a padronização e os estereótipos do trabalho, mas também a crise do mercado.
    "Da mesma forma que há o sonho do casamento, do príncipe e do final feliz, a profissão é um sonho também", explica a artista.
    "O que você vai ser quando crescer?' é uma pergunta recorrente. Desde sempre a gente tem essa ideia do uniforme, do ideal", completa.
    O nome da mostra, em inglês, brinca com as traduções da palavra "fired".
    Ao mesmo tempo em que o vocábulo pode significar "demitido", também faz alusão aos disparos com armas de fogo realizados pela artista contra as imagens.
    Depois de se autodocumentar, Bierrenbach levou as fotografias para um estande de tiro, onde, utilizando armas de calibre 12 e 38, mirou a "cabeça" dos autorretratos.
    Em alguns casos, a artista utilizou explosivos.
    Segundo Bierrenbach, ao apagar o próprio rosto, ela deixa de representar a si mesma para se tornar uma condição coletiva.
    "A minha questão não é o autorretrato, não sou eu ali. Eu acabo me usando como um suporte", diz.
    NOIVAS
    O recurso é similar ao que a fotógrafa havia utilizado na série "Noivas - Aluguel e Venda", de 2004.
    Na obra, Bierrenbach percorreu a rua São Caetano, na região central de São Paulo, conhecida pelas lojas de roupas de casamento, e pegou emprestados diferentes vestidos para se transformar em um catálogo de noivas.
    No lugar da cabeça de Bierrenbach, um forte flash escondia o rosto da artista, fazendo o mesmo papel dos tiros e explosivos de "Fired".
    "Eu até brinco que essa [nova] série são as noivas dez anos depois, quando elas estão no mercado de trabalho e só estão se ferrando", conta, aos risos.

    Pesquisa traz à tona trabalhos perdidos de Flávio de Carvalho: Peças do artista, garimpadas em depósitos públicos de São Paulo, estarão em mostra na Oca

    Entre os achados estão figurinos para o balé 'O Cangaceiro', de 1954, e as plantas originais das casas na alameda Lorena
    SILAS MARTÍDE SÃO PAULO
    Mais do que artista plástico, Flávio de Carvalho, morto aos 73 há 40 anos, foi engenheiro, arquiteto, cenógrafo, diretor teatral, performer, designer e cineasta frustrado. Também acabou sendo vítima dessa pluralidade estonteante, já que parte de sua obra acabou espalhada --às vezes esquecida-- em arquivos e depósitos públicos.
    Ele tentou refundar os costumes, revendo a moda europeia no clima tropical, reinventando a ideia de moradia ao construir uma vila modernista na alameda Lorena, em São Paulo, e pregando uma arquitetura "nua e lisa". Agora, tem uma parte de sua história desenterrada.
    Um garimpo feito no Theatro Municipal, em salas da biblioteca Mário de Andrade e até em fundos de gaveta do Arquivo Histórico trouxe à tona uma série de trabalhos até agora dados como perdidos. A pesquisa foi feita nos últimos meses pela equipe do Museu da Cidade, responsável pelo acervo municipal.
    Entre as obras estão 12 figurinos do balé "O Cangaceiro", encenado por Carvalho nas comemorações dos 400 anos de São Paulo, em 1954, e as primeiras plantas das obras na alameda Lorena.
    O Museu da Cidade tentará integrar agora esses itens à coleção de arte de São Paulo, fazendo saltar de quatro para cerca de 40 o número de obras de Carvalho catalogadas no acervo público.
    Esse conjunto recém-descoberto também será o ponto forte da ocupação da Oca pela coleção da cidade a partir de janeiro do ano que vem, que estreia com uma grande mostra dedicada ao artista.
    "Estamos tomando o caso do Flávio de Carvalho como referência para pensar os objetos na coleção", diz Afonso Luz, diretor do Museu da Cidade. "Essas peças são documentos vivos da história."
    Mas, segundo Luz, o esquecimento delas se deu por causa do "olhar conservador sobre seu significado estético".
    "Temos o desafio de organizar milhares de bens culturais guardados em inúmeros depósitos e reservas técnicas espalhadas pela cidade", afirma. "Um dos motivos dessa dispersão é que o conceito corrente de artes visuais é de objetos de parede, obras que funcionam como decoração."
    ELO PERDIDO
    Os vestidos desenhados por Carvalho para "O Cangaceiro" representam uma espécie de elo perdido na trajetória do artista --um contraponto aos experimentos com moda nas performances que ele orquestrou.
    Enquanto Carvalho trouxe aspectos femininos ao guarda-roupa do homem em 1956, quando caminhou de saia e meia arrastão pelo centro da cidade na ação "Experiência nº 3", os vestidos de seu balé eram masculinizados, algo entre o sensual e a robustez de jagunços.
    Também têm grande ressonância agora as plantas originais da alameda Lorena. Com as casas hoje em grande parte descaracterizadas, algumas funcionando como lojas, os documentos podem servir de base para um restauro das construções que Carvalho criou nos anos 1930 como "máquinas de morar".
    Artista criou 17 casas nos Jardins, em SP
    O desenho reproduzido no alto desta página é uma das plantas originais feitas por Flávio de Carvalho para as 17 casas que construiu na alameda Lorena, em São Paulo. As plantas podem ajudar a restaurar as construções, datadas de 1936.

    Flávio de Carvalho é tema de mostra e documentário
    Nos 40 anos de sua morte, modernista tem pinturas exibidas na Faap
    Plural, artista também tentou fazer cinema; sua iniciativa de rodar um longa na Amazônia é analisada em filme
    DE SÃO PAULO
    Enquanto a Oca deve receber em janeiro um recorte expandido da produção de Flávio de Carvalho, que vai da arquitetura aos figurinos, uma mostra em cartaz agora no Museu de Arte Brasileira da Faap reúne a ala mais tradicional de sua obra, com retratos de gente como os maestros brasileiros Eleazar de Carvalho (1912-1996) e Camargo Guarnieri (1907-1993).
    Tudo, aliás, está interligado nessa história, já que Guarnieri, retratado por Carvalho, compôs "O Cangaceiro", balé que teve os figurinos criados pelo artista plástico.
    Maria Izabel Branco Ribeiro, diretora do museu da Faap, não dá a mesma ênfase aos projetos de Carvalho para além da pintura.
    "Dizer que a obra dele como figurinista é tão significativa quanto a obra de pintor e de arquiteto é uma afirmação desequilibrada", diz Branco Ribeiro. "Ele não tem uma preocupação com moda. Vejo as atitudes dele como de alguém que contraria regras, um iconoclasta."
    'DEUSA BRANCA'
    Iconoclasta ou só inquieto, Carvalho também tentou ser cineasta. Sua iniciativa de rodar um filme na Amazônia, para onde levou duas loiras esbeltas e dispostas a encarnar sua "Deusa Branca", virou alvo de um documentário lançado no Itaú Cultural e que deve entrar no circuito de festivais em 2014.
    No filme, o diretor Alceu Braga destrincha os bastidores de uma expedição do artista à selva em 1958.
    Sem roteiro, Carvalho pretendia gravar o embate de sua trupe com uma perigosa tribo de canibais, os xirianãs.
    Mas sua desgraça não veio pelas mãos dos índios, que serviram até banquete de macacos assados à equipe, e sim por ter se apaixonado por uma atriz, que conquistara também o capitão da expedição. Irritado, Carvalho até trocou tiros com o rival, embora nenhum tenha se ferido.
    A expedição fracassada sepultou a incursão cinematográfica do artista.

    terça-feira, 26 de novembro de 2013

    De Big Apple a Gran Manzana: Passado hispânico si de baixo do tapete

    Quando publicou um editorial em apoio a Bill de Blasio, o então candidato democrata à Prefeitura de Nova York, o jornal "The New York Times" argumentou que a cidade havia obtido "muitos sucessos" ao longo dos três mandatos consecutivos de Michael Bloomberg (2001-13), mas seu "renascimento" ainda precisava se completar.
    A metrópole que enfrentou a criminalidade, reorganizou as finanças, revitalizou bairros e redesenhou espaços públicos continua a conviver com padrões incômodos de desigualdade social.
    De Blasio, segundo o "Times", é o homem indicado para "dar voz aos nova-iorquinos esquecidos", os 46% que vivem próximos à linha de pobreza, os milhares que dormem em abrigos públicos, as famílias de baixa renda que não conseguem pagar aluguel e são empurradas para longe na luta pela sobrevivência.
    Grande parte da retumbante vitória que De Blasio afinal conquistou (ele é um típico progressista que quer taxar ricos para financiar o ensino público infantil) se deve à comunidade de origem hispânica.
    Os considerados brancos, que eram 42% da população nova-iorquina em 1990, são hoje 33% -enquanto os hispânicos já chegam a 29%.
    Ouve-se gente falando espanhol em cada esquina, em cada balcão, em cada carrocinha de cachorro-quente.
    PINTA
    A presença hispânica também é marcante no mundo das artes e da cultura. No fim de semana passado aconteceu a Pinta, a feira de arte latino-americana, que reúne galerias de países do continente, além de americanas, espanholas e portuguesas. O evento, que andou caído nas últimas edições, reapareceu com vigor, num endereço bacana (na r. Mercer, 82), no bairro do Soho.
    Em atmosfera intimista, a feira designou alguns curadores que selecionaram artistas e galerias para participar das diversas seções -como arte moderna, arte contemporânea, vídeos e emergentes.
    As galerias brasileiras Casa Triângulo e Baró foram convidadas para o "Emerge", setor coordenado pelo colombiano José Roca, curador-
    assistente de arte latino-americana da Tate, de Londres. A feira também teve uma programação de debates, dois deles dedicados a nomes brasileiros -os incontornáveis Hélio Oiticica e
    Oscar Niemeyer.

    Não pude comparecer à mesa que discutiu a obra do artista carioca, mas assisti ao painel sobre nosso arquiteto mais famoso, com a presença de Carlos Brillembourg, da Brillembourg Architects, e de Patricio del Real, curador-assistente do departamento de arquitetura e design do MoMA. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos.
    CASA ESPANHOLA
    Enquanto isso, o Museu do Brooklyn apresenta até janeiro uma exposição intitulada "Atrás das Portas: Arte na Casa Hispano-Americana (1492-1898)", a primeira grande mostra realizada nos Estados Unidos sobre a vida privada e os interiores das residências da elite espanhola que viveu na América, da descoberta até o fim do século 19.
    São cerca de 160 pinturas, esculturas, gravuras, tecidos e objetos de arte decorativa, que remetem o visitante a temas como a representação pictórica dos indígenas, os sinais distintivos da nobreza, o esquadrinhamento da casa e os rituais da vida doméstica.
    A convite de Gabriel Pérez-Barreiro, diretor da prestigiada Coleção Patricia Phelps de Cisneros (que cedeu peças para a exposição), tive a oportunidade de participar de uma visita guiada, com o curador Richard Aste. Uma aula.
    O império espanhol chegou a ocupar mais da metade do território hoje pertencente aos Estados Unidos -uma longa e tumultuada história, muitas vezes empurrada para debaixo do tapete, que continua a bater à porta do "sonho americano".
    SERRA NA GAGOSIAN
    Poucas coisas exibidas no circuito de arte em Nova York causam tanta impressão quanto a nova escultura que Richard Serra instalou na galeria Gagosian, na r. 21, no bairro de Chelsea (www.gagosian.com).
    São duas peças de aço justapostas, que formam uma estrutura sinuosa de grande escala, com espaços e caminhos internos pelos quais -como em outras obras do artista- as pessoas podem transitar. As dimensões impressionam: as duas "metades" têm 4 metros de altura, e o conjunto alcança 25 metros de extensão por 12,2 metros de largura.
    Nascido em San Francisco em 1938, Serra é um dos maiores escultores de nosso tempo, justamente celebrado em todos os quadrantes do planeta.
    E, sim, também ele é parte da herança hispânica na América: seu pai, Tony, era um imigrante de Mallorca que foi morar na Califórnia. Hasta la vista, baby.
    MARCOS AUGUSTO GONÇALVES, 57, é jornalista da Folha em Nova York. 24.11.2013
    www.canotusmusic.blogspot.com